sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Do(s) Sentido(s) da Vida

Apesar da mente tão nublada como os desígnios da meteorologia para esta semana que passou, lá dei uns pontapés ao homúnculo que anima a minha mente e escrevinhei algumas coisas no caderninho que me vai acompanhando. Calhou-me para o maior cliché filosófico qua maior das questões filosóficas à qual muitas outras são subservientes. Desse inquérito saiu o seguinte:



Todas as acções e crenças que podemos constatar num ser humano são subservientes a um princípio ou propósito orientador, que as coloca em perspectiva. Chamamos a isto, vulgarmente, O Sentido da Vida. Quando nos questionamos sobre o sentido da vida, perguntamo-nos os motivos pelos quais nos encontramos na condição de existência actual, para que serve a vida e qual é o seu significado derradeiro. De uma perspectiva antropológica, é difícil estabelecer em que momento o Homem começou a colocar estas questões, mas conhecemos as manifestações que tomaram as tentativas de responder a esta questão: a religião, a filosofia e a ciência. De um ponto de vista pragmático, todas estas tentativas são dispensáveis: poderíamos muito bem passar sem elas. O homem pode continuar a cozinhar ou a construir cidades sem que surjam questões de maior ao que concerne a natureza subjacente aos motivos pelos quais existe. No entanto, as nossas capacidades cognitivas permitem-nos reconhecer uma realidade mediata e abstracta, que existe para além do aqui e agora em que vivem os outros mamíferos.

Não entrando em detalhe no que diz respeito à génese da religião, ou o estatuto ontológico (existência) das entidades por si propostas, existe mérito em explorar o papel da religião na qualidade de estabelecedor de preceitos valorativos. Nas religiões teístas (em que existe um Deus pessoal) um agente externo (Deus), investido da sua autoridade de criador, dita o sentido através do qual a sua criação se deve reger. Os dez preceitos do Decálogo foram escritos por Deus e entregues ao profeta para que o comportamento indvidual fosse condicionado por eles.

Se traçarmos o sentido da vida até a um agente extrínseco, temos o problema resolvido. Vivemos para atingir um estado de bem-estar supremo e bem-aventurança (no caso das religiões abraâmicas) ou para realizar qualquer que seja os desígnios de tal demiurgo. Existem valores objectivos.

A outra face das coisas é a rejeição completa da objectividade dos valores. A morte nietzscheana de Deus (uma morte não "física", se é que podemos outorgar um corpo a Deus, mas da percepção de Deus na sociedade) mergulha a sociedade no caos pós-moderno, na crise de valores. O objectivo da vida já não é teleológico, mas focado no aqui e agora. No vácuo do niilismo, o homem é forçado a conferir a si próprio novos valores, baseados na sua nova condição.

"Se Deus está morto, então tudo é permitido", afirma uma das personagens de Dostoiévski. Concordo, uma vez que não existem instâncias elevadas que exerçam acção punitiva sobre nós, somos livres de iniciar qualquer acção. No entanto, a ordem e a lei, com todas as suas excepções, coalescem em função da cooperação social, da ajuda mútua, factores que asseguram a própria existência individual. O ser humano é livre de praticar qualquer acção que bem entenda, sabendo no entanto que poderá sofrer as consequências associadas ao acto, à luz da justiça terrena.

Concluo que somos livres de traçar o propósito que oriente as nossas vidas, conforme a nossa interpretação da realidade. O que dá origem a outras considerações, sobretudo no que concerne à natureza de vários sistemas éticos e aos pressupostos que os animam.

quarta-feira, 4 de Março de 2009

Perversões do entrismo mercantil nas áreas do Estado

"Last week two judges in Pennsylvania were convicted of jailing some 2000 children in exchange for bribes from private prison companies."

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Mais uma pedra neste contraforte.

Faço agora também o meu pontapé de saída neste projecto.
Afinal quem suporta este contraforte? Quanto aos meus doutos colegas pouco posso dizer, além de reconhecer a elevadíssima cultura política, histórica e económica do excelentíssimo Miguel, meu camarada das lides do socialismo democrático português jovem, que me convidou a participar neste bloguissimo projecto. Mas quanto a mim posso partilhar alguma informação que creio ser correcta, pelo menos até à data. Tenho neste momento 22 anos e estou a estudar Engenharia Biológica no Instituto Superior Técnico onde também participo na assembleia de representantes.
Nos meus interesses incluem-se a politica, o teatro, a ciência, a música e a Internet. Entrei neste projecto com o objectivo de partilhar com o mundo lusófono as opiniões e sentenças que ao longo do tempo fui formando acerca dos mais variados assuntos, procurando fundamentar a sua maioria e esperando que pelo menos algumas delas contenham alguma originalidade. Dito isto me despeço desejando boas navegações a todos aqueles que, intencionalmente ou não, aportaram a esta ilha fortificada.

sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Anarquismo

Um dos meus hobbies recentes tem sido a leitura dos autores anarquistas. Todos os autores anarquistas:
  • Desde o anarquismo individualista de Max Stirner, Benjamin Tucker, Émile Armand, Joseph Albert Libertad e que inspirou e foi inspirado por Henry David Thoreau;

  • Passando pelo comunismo libertário de Pedro Kropotkine, Errico Malatesta e de Élisée Reclus;

  • E terminando no socialismo libertário, seja o colectivismo de Bakunine, o mutualismo de Proudhon ou o anarco-sindicalismo de ambos.


  • Esta deriva é justificada por uma momentânea necessidade de questionar tudo. Isso só se faz com arquitectos e demolidores, não com design de interiores. Então, no espírito da "destruição criadora" de Bakunine, chamem primeiro os demolidores para arrojar la bomba e que não fique pedra sobre pedra. A seguir, os arquitectos serão chamados, analisados um a um e devagarinho, para ninguém tropeçar e também porque a matéria é longa e o tempo é curto. Tudo isto ficará indexado pela etiqueta que dá nome à posta.

    terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

    O Declínio da Educação Liberal

    Falamos de "educação liberal" quando nos referimos a uma educação abrangente, a uma educação que fornece o indivíduo com um conhecimento horizontalmente vasto, que é conducente à autonomia intelectual e moral. Falamos do seu declínio quando verificamos que a filosofia de educação que predomina é a da produção de indivíduos em série, da especialização e indoctrinação. Uma máquina bem oleada que serve vários interesses e transforma o indivíduo num veículo apático do status quo, da profissionalização, da sardinização industrial do conhecimento: aprender o que pensar face a aprender a pensar.

    A autonomia intelectual é desejável, na medida em que coloca o indivíduo no leme dos seus destinos. E uma das formas de adquirir essa autonomia é através do esforço intelectual despendido na leitura e análise das obras que formam, coerentemente, o edifício intelectual da cultura ocidental. Tal, em oposição da regurgitação intelectual a que podemos assistir nas instituições de ensino modernas, em que pequenos trechos e uma análise potencialmente enviesada por parte de um professor constituem a base do entendimento sobre uma obra ou autor clássico. No máximo, fornecerá ao aluno uma base fragmentária sobre a qual erigir as suas ideias. Um edifício que, quando submetido aos elementos protagonizados por argumentos sólidos e válidos, ruirá inevitavelmente, e onde se poderá assistir ao triste espectáculo do indivíduo que permanece junto das ruínas, incapaz de as abandonar, fruto da fé depositada nos conceitos e juízos defendidos, e fruto da ausência de autonomia intelectual. Assim permanece, uma vez que é incapaz de distinguir os bons dos maus conceitos, e não sabe o que aproveitar.

    Orwell escreveu, ainda que ficcionadamente, um aviso sério ao condicionamento metal do indivíduo. É necessário que exista material que potencie a construção de ideias sólidas. E longe de defender o essencialismo na esfera da educação, creio que a educação liberal, através do estudo dos clássicos, constitui o melhor fundamento para uma sociedade iluminada.

    sábado, 21 de Fevereiro de 2009

    Apoio mútuo

    Este blog é para os leitores que, como eu, querem pelo menos ver os clássicos da liga de futebol que foram expurgados da televisão pública, sem ter que pagar um pacote inteiro com jogos que vão desde o críquete ao berlinde. Somos a favor da unidose.
    Estou a seguir o Sporting - Benfica com comentários em inglês.

    sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

    Rancores de um pequeno diletante

    É por existirem licenciaturas como a minha que eu chego a compreender - conquanto sem aceitar - que o patronato exija propostas como o alargamento do período experimental, recentemente chumbadas pelo Tribunal Constitucional.
    Licenciaturas como a minha procuram enganar a entidade patronal fazendo estendal de competências que os seus formandos não precisam de saber e entender para passarem nos exames. Os exames padecem de uma estranha imutabilidade estrutural. Desta forma, não é necessário um estudo, ainda que compendioso, da teoria, nem uma compreensão dos procedimentos. Basta ver os exames, olear a máquina e cá vai disto.
    Como corolário, obrigamos os recursos humanos a gastar rios de dinheiro em programas de despiste, quando separar o trigo do joio era a função da licenciatura. Trust, but verify. Um desperdício.

    quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

    A fulanização do Socialismo do século XXI (3)

    Aproveitando ainda a projecção dos holofotes sobre a Venezuela, recupero:
    • Este texto de João Rodrigues:
      "O que incomoda realmente é que a renda do petróleo esteja a ser utilizada para expandir as «liberdades positivas» das classes populares (liberdade para aceder progressivamente a condições de vida condignas) e para forjar um Estado desenvolvimentista assente numa economia mista com uma redistribuição importante dos activos. É verdade que Chávez tem um estilo histriónico que, numa era de mediatismo agressivo, tende a toldar a força da sua mensagem política. Sobretudo para algumas audiências. Mas também aqui cabe-nos separar o essencial do acessório. A forma do conteúdo se quiserem. E recusar categorias vazias - «populismo», por exemplo. Até porque se alguma coisa Chávez tem feito na América Latina não é certamente transformar «a esquerda internacional numa palhaçada», mas sim dar força material aos vários projectos progressistas que não cessam de crescer no continente. Acho mesmo que a esquerda europeia, dado o estado em que se encontra, tem muito poucas lições - de forma ou de conteúdo - a dar à pujante e variada esquerda latino-americana de que Chávez é parte integrante. É que esta tem conquistado democraticamente o poder e mudado a vida da gente comum. E no fim, para além da espuma, é só isto que conta."

    • Uma entrevista feita por Mário Soares a Hugo Chávez, onde não foram omitidos temas como a propriedade privada, a liberdade e a definição de socialismo: Parte 1, Parte 2 e Parte 3.

    terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

    Casamento civil entre pessoas do mesmo sexo

    É assunto corrente, o que não agrada a quem queria o assunto já engavetado com os projectos do BE e do PEV apresentados há mais de cinco meses. No entanto, no dia 10 de Outubro, o PS decidiu que era boa ideia chumbar os projectos, arvorando um vanguardismo sectário não assumido, ou camuflado com argumentos de muito baixa extracção como:
    - O argumento da ausência de posição no programa eleitoral de 2005, aqui rebatido por André Freire, fazendo notar que a essa posição corresponderia uma abstenção e não um voto contra;
    - O argumento da falta de legitimidade de um voto favorável a um projecto que não se encontra no programa eleitoral de 2005, bastando a esse propósito lembrar que a lei do divórcio apresentada pelo PS também não constava;
    - No fim de linha o PS optou por alegar "questões de oportunidade". Argumento que está longe de ser irreplicável.
    Três textos de Ana Gomes a este propósito põem os pontos nos i´s.
    Feita a revisão da história recente e reparo às tropelias do PS ou exercício de autoflagelação (como lhe chama Augusto Santos Silva), exponho os argumentos a favor da alteração legal.
    Alargamento das possibilidades de felicidade de um grupo de pessoas, pelo acesso destas a uma instituição (e aos seus benefícios) que o Estado promove, sacrificando a noção tradicional de casamento que é de menor importância. Um significado simbólico de notação pública para com um grupo que foi desrespeitado por séculos de hegemonia cultural e coacção moral. O Estado equilibra assim os pratos da balança. E isto chega.
    A adopção terá que ficar para outras núpcias. Porque se inclinámos um plano como disse o advogado Pinheiro Torres no P&C, deve ter sido a meio grau e com muito atrito. Em Portugal as coisas fazem-se devagarinho, mesmo que os discursos sejam importados da nossa vizinha Espanha. Senão oiçam todo este discurso de Zapatero à Câmara aquando da aprovação e agora oiçam o discurso de Sócrates na apresentação deste ponto da sua moção. Tinha que dar esta ferroada porque o plágio é descarado.

    Despachos da República Bolivariana da Venezuela

    Hugo Chávez jura consagrar su vida al servicio del pueblo venezuelano
    (Site Oficial do Governo Venezuelano)


    O Sim venceu o referendo. O Referendo Constitucional que pretende emendar os artigos 160, 162, 174, 192 e 230 presentes na Constituição de 1999 deu a vitória à posição defendida pelo Presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Este jura consagrar a sua vida ao serviço do povo venezuelano. Mas mesmo que Hugo Chávez se mantenha o mais virtuoso dos governantes, qual ideal platónico do governante perfeito, este Sim é uma debilitação grave dos princípios invioláveis da Democracia. É uma ameaça em potência, que não pode ser ignorada.

    Preocupa-me, da mesma forma, o aumento progressivo de um culto da personalidade que transforma Hugo Chávez no sucessor legítimo de Simón Bolívar. Preocupa-me que estes mecanismos, testados pela história, alienem o governante do povo que este deve servir. Preocupam-me as consequências de um eleitorado apático, que não reconhece ameaças tão prementes como estas. A História ensina-nos, de forma assaz clara, as consequências que advêm de acções que prolongam o poder de forma desnecessária. Cabe ao povo venezuelano vigiar de perto a governação de Chávez, agora que a sua posição se encontra fomentada.

    segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

    Grande teima

    Momento confrangedor da grande entrevista com Francisco Louçã.

    "Judite de Sousa: Ó Doutor Francisco Louçã, há uma coisa que eu não entendo. Nós verificamos que todas as grandes empresas petrolíferas estão privatizadas.

    Francisco Louçã: Não. Quase todas são públicas. Arábia Saudita, Estados Unidos, Itália ...

    Judite de Sousa: Europa, Europa ...

    Francisco Louçã: França, França. São empresas públicas.

    Judite de Sousa: Mas com capital privado ..."


    Não sei se doí mais o facto de Judite de Sousa não saber que as maiores empresas petrolíferas a nível mundial são públicas ou de não saber que uma empresa não deixa de ser pública por ter capitais privados. Só deixa de ser pública se o Estado não detiver 50% mais uma das unidades de participação no capital social.
    Visita-se o wikipédia e cá estão elas, por ordem decrescente de reservas em biliões de barris.

    Saudi Arabian Oil Company 295
    National Iranian Oil Company 287
    Qatar Petroleum 165
    Abu Dhabi National Oil Company 137
    Iraq National Oil Company 137
    Gazprom 115
    Kuwait Petroleum Corporation 107
    Petróleos de Venezuela S.A. 102
    Nigerian National Petroleum Corporation 62
    National Oil Corporation (Libya) 45
    Sonatrach 40
    Rosneft 35

    Qual destas empresas é que não é pública?

    Acresce que continua a não ser uma tese verdadeira mesmo que nos queiramos cingir ao território europeu. No mesmo site, podemos reter alguns nomes de empresas públicas ou que o Estado domina através de golden-shares como a Eni (italiana), a Maurel & Prom (francesa), a Statoil (norueguesa), a Hellenic Petroleum (grega), a INA (croata), a Nafta (sérvia mas que vai ser adquirida pela Gazprom (também esta pública)), Naftohaz (ucraniana), a Neste Oil (finlandesa), a OMV (austríaca) que detém a Petrom (romena), a PKN Orlen (polaca, onde o Estado consegue ser o principal accionista sem ter a maioria das acções), a PGNiG (também polaca mas totalmente detida pelo Estado) ... e basta!

    A fulanização do Socialismo do século XXI (2)

    Sem querer parecer monomaníaco, nem falar da vitória do Sim - porquanto está analisado o culto de personalidade de se erige da opção tomada -, notei que andam aí umas carmelitas chocadíssimas com a expulsão do eurodeputado do PP, Luis Francisco Herrero.
    Minhas amigas, os observadores internacionais têm algumas obrigações sob pena de perderem a credencial (e os direitos que daí decorrem como um visto de permanência). Essas obrigações estão aqui escritas (RESOLUCIÓN N° 040623-1050) e entre elas encontramos disposições deste tipo:

    "Articulo 3

    2) Imparcialidad (...) no deben favorecer, directa o indirectamente, a través de su actuación, a ninguna de las opciones político electorales posibles

    (...)

    3) Neutralidad, en el entendido de que las actuaciones del observador internacional se circunscriben a evaluar el proceso electoral correspondiente de acuerdo a los parámetros de justicia, equidad, y transparencia, independientemente de la repercusiones que pueda generar un determinado resultado

    (...)

    Artículo 8

    1) Pleno respeto a la soberanía e independencia de la República y con estricta observancia de la Constitución y leyes de la República Bolivariana de Venezuela

    (...)

    2) No hacer proselitismo político de ninguna naturaleza o expresar o manifestar preferencias de orden político o partidista, a favor de alguna de las opciones del procedimiento de revocatorio.

    3) No opinar sobre asuntos internos de la República Bolivariana de Venezuela."


    Cruzando isto com as declarações do eurodeputado aqui respigadas, alguém é capaz de me dizer qual destas normas é que não foi violada?

    domingo, 15 de Fevereiro de 2009

    Darwin: Vida e Obra II

    A publicação da Teoria da Selecção Natural

    Darwin desenvolveu rapidamente as suas ideias partindo das notas escritas a bordo do HMS Beagle, trabalhando especialmente nas suas considerações sobre a transmutação das espécies, escritas em 1836, perto do fim da viagem que levou Darwin às paragens mais distantes. Darwin escrevia a sua teoria quando, em Junho de 1858, recebeu um ensaio de Alfred Russel Wallace, naturalista britânico que se encontrava no Bornéu, expondo a sua própria Teoria da Selecção Natural. Wallace não empregava o termo 'Selecção Natural', mas falava de uma divergência evolucionária face a pressões ambientais. Darwin enviou a carta que lhe havia chegado ao geólogo Charles Lyell, que em colaboração com Joseph Hooker, publicaria o ensaio de Wallace em conjunção com o material não-publicado de Darwin (On the tendency of species to form varieties; and on the perpetuation of varieties and species by natural means of selection).

    Wallace aceitou serenamente a posição de co-descobridor: apesar de ambos os naturalistas terem chegado à Selecção Natural através de vias independentes, Darwin já trabalhava na ideia há cerca de 20 anos, após a chegada da expedição efectuada pelo Beagle. O estatuto de Charles Darwin nos círculos sociais e científicos atribuiram credibilidade à ideia de Wallace, sem a qual as suas perspectivas não teriam sido levadas a sério.

    Apesar de ambas as teorias concordarem essencialmente, existiam diferenças consideráveis: ao passo que Darwin atribuía ênfase à competição entre indvíduos da mesma espécie com vista à sobrevivência e à reprodução, Wallace incidia sobre a pressão biogeográfica e ambiental que forçava as espécies a adaptarem-se. Apesar disso, Wallace tornou-se um dos mais tenazes defensores da Origem das Espécies, após a sua publicação.


    Publicação de "A Origem das Espécies"

    A "Origem das Espécies" é publicada em 1859, o pináculo de mais de 20 anos de trabalho de Charles Darwin nas ideias que decorreram das suas observações a bordo do HMS Beagle. Darwin considera "A Origem das Espécies" na qualidade de um resumo, um trabalho inacabado. Aquando da sua publicação, "A Origem das Espécies" conheceu um êxito inesperado, tendo esgotado todas as 1250 cópias colocadas em circulação.

    Reacções às ideias de Darwin

    Após a publicação de um dos livros que viria a constituir-se o pilar da ciência moderna, vários sectores da sociedade e da ciência debateram as ideias e as implicações contidas em "A Origem das Espécies". Por volta desta altura, a saúde de Charles Darwin havia deteriorado significativamente, pelo que decidiu manter-se afastado do debate directo. Tal não impediu que acompanhasse a discussão pública que as suas ideias haviam lançado, e que estavam à beira de revolucionar toda a sociedade e, sobretudo, os paradigmas científicos.

    Um dos grandes proponentes das ideias de Darwin foi Thomas Henry Huxley. Antes extremamente céptico e crítico da Teoria da Evolução tal como proposta no trabalho de Chambers e Lamarck, tornou-se um dos adeptos da Evolução através da Selecção Natural. Viria a protagonizar uma das grandes discussões do Debate sobre a Evolução, em Oxford, no ano de 1860, marcado pela grande discussão entre Huxley e Wilberforce. Huxley viria a tornar-se conhecido como "O Bulldog de Darwin", pelo seu apoio tenaz das ideias de Charles Darwin.

    A Igreja de Inglaterra, por outro lado, reagiu de forma desuna: ao passo que alguns dos seus integrantes mais conservadores consideravam o trabalho de Darwin como uma afronta à Teologia Natural, a ala mais liberal recebeu a Selecção Natural de Darwin como um instrumento do engenho divino.

    "A Origem das Espécies" teve uma recepção mista nos círculos científicos, religiosos e filosóficos. Dependia, muitas vezes, de como a teoria se encaixava com a perspectiva da realidade daqueles que tomavam contacto com a obra. Por outro lado, revolucionou a perspectiva da realidade de vários indivíduos.


    Obras Posteriores: A Descendência do Homem e Selecção em Relação ao Sexo

    Na sua "Origem das Espécies", Darwin evitou tocar na temática da origem e descendência do Homem, apesar de todas as implicações de que também o Homem descendia dos animais, removendo-o do contexto sagrado, na sua qualidade de obra privilegiada que ascendia ao topo da Criação, relegando-o para o seu lugar na Natureza.

    Doze anos após a publicação de "A Origem das Espécies", Darwin publicou "A Descendência do Homem", que não sendo a primeira obra sobre a evolução humana, explorava áreas que não haviam sido abordadas previamente, tal como a selecção sexual. A obra é, em parte, resposta ás crenças de Wallace, que assentavam agora sobre o Espiritualismo, como forma de explicar as faculdades mentais exclusivamente humanas. Darwin discorre também sobre a questão da raça, ética e a diferença entre os sexos.

    Darwin publicaria outras obras, tais como "Emoções", as suas investigações sobre as plantas insectívoras. "The Formation of Vegetable Mould through the Action of Worms" é a sua última obra de cariz científico.

    Darwin morre a 19 de Abril de 1882, em Downe, no condado de Kent, deixando para trás um legado notável, as sementes de uma revolução científica que continua nos nossos dias. Darwin foi honrado com um funeral de Estado na Abadia de Westminster, e enterrado perto de figuras tão relevantes como John Herschel e Isaac Newton.

    sábado, 14 de Fevereiro de 2009

    A fulanização do Socialismo do século XXI



    Referenda-se já hoje a emenda constitucional que suprime os limites à reeleição dos chefes dos poderes executivos nacionais. Desprezando as cronometradas (mas inconsequentes) tentativas de suspender o sufrágio, prato que se veio tornando habitual desde que Chávez tomou posse, há todas as razões e mais algumas para votar Não. Uma delas é resguardar a democracia e o próprio processo revolucionário de mais uma perversão que o vai enquistar.
    Não vou é, à laia do oportunismo mais soez, negar os feitos duma governação que até aqui me merece saldo positivo, independentemente dos demandos que possam trilhar a "Revolução Bolivariana" no futuro. Tudo se consubstancia nos factos. Depois de resistir a todo o jornalismo fardado, a um golpe militar a que se seguiu de um golpe petrolífero, a Venezuela conseguiu através das suas políticas baixar o desemprego para 8% (era 14% em 1998), diminuir a pobreza extrema em quase 10% e também as desigualdades (ver Índice de Gini), acumular 18 trimestres consecutivos de expansão económica (e ao contrário do que propalam as más línguas, a maioria do crescimento deu-se no sector privado por comparação com o público e no sector não-petrolífero por comparação com o sector petrolífero).
    Dito isto, e porque os projectos políticos não se devem firmar em pessoas, mas em ideias, talvez não fosse tamanho desperdício de génio tentar encontrar um sucessor no PSUV (Vielma Mora? Raúl Isaías? Aristóbulo Istúriz?), em vez lucubrar sobre a forma mais ordinária de tentar fazer de novo com que o povo caia na esparrela.

    Darwin: Vida e Obra I

    Charles Darwin é um nome que ecoa pelos tempos. O naturalista inglês foi obreiro de uma das mais contestadas revoluções científicas: relegou o ser humano da mais privilegiada obra divina à sua condição de integrante do restante mundo natural, a uma das espécies que encabeça a actual evolução dos primatas. Celebrou-se a 12 de Fevereiro o bicentenário do seu nascimento, e celebra-se este ano a publicação da obra que revolucionou as ciências naturais: A Origem das Espécies. O naturalista é, sem dúvida, um dos grandes contrafortes das Ciências Biológicas. Este artigo pretende disponibilizar um pequeno resumo e análise da vida e obra de Darwin, publicado em duas partes.


    Darwin, a sua vida


    É certamente difícil separar a vida de um homem da sua obra: as duas constituem um tecido indissociável, uma ajudando a determinar a outra. Nasceu em Shrewsbury, filho do médico bem sucedido Robert Darwin, e de Susannah Darwin. Apesar da morte da mãe no decurso da sua infância, quanto tinha apenas 8 anos, Charles cresceu no seio de uma família abastada. Darwin ingressou na Universidade de Edimburgo com vista a seguir a carreira do seu pai. Constituiram impedimentos a este objectivo as, na sua opinião, entediantes aulas, e a sua aversão ao sangue. No segundo ano de estudos, Darwin ingressou na Plinian Society, um grupo estudantil dedicado à discussão de História Natural. Durante a sua estadia em Edimburgo, Darwin teve a sua estreia nas publicações académicas através de Robert Grant (proponente da evolução de Lamarck), sobre cuja égide Darwin estudara invertebrados marinhos. Face aos eventos, e a uma carreira médica inviabilizada, Robert Darwin rapidamente envia o filho para o Christ's College, em Cambridge. Darwin não se dedica aos estudos religiosos, optando por actividades desportivas ao ar livre. O seu primo, Darwin Fox, iniciou-o à colecção de besouros, e apresentou-o a John Stevens Henslow, professor de botânica e homem que se tornaria seu tutor. Dele, Darwin adquiriu vasto conhecimento de Ciências Naturais.

    A Viagem a bordo do Beagle

    A amizade de Darwin e Henslow proporcionou ao primeiro a possibilidade de embarcar no HMS Beagle, na sua qualidade de naturalista e sobretudo companheiro do comandante, Robert FitzRoy. A viagem à volta do mundo durou cinco anos, visitando paragens tão distantes como o Brasil e a Patagónia, Chile, as Galápagos, entre outros, e serviria de base à revolução que Darwin estava prestes a protagonizar. Darwin manteve notas detalhadas das suas observações e especulações feitas a partir da análise dos dados adquiridos.

    A Teoria Evolucionária de Darwin: A Evolução através da Selecção Natural

    Quando Darwin regressou a Inglaterra, em 1836, era já uma celebridade nos círculos científicos. Darwin trouxe consigo dezenas de amostras de animais nunca antes vistos. Analisaram-se espécies de fringilídeos cujo aspecto exterior era semelhante, mas que possuiam características que lhes permitiam adaptarem-se a fontes de alimento diferentes. Darwin regressou com fósseis de mamíferos extintos, cujas semelhanças com os actuais mamíferos levaram-no a acreditar que as espécies se alteram ao longo do tempo.

    Em 1837, Darwin escreveu o seu primeiro caderno sobre a evolução. Darwin encheu vários cadernos com factos que poderiam ser usados em abono da sua teoria.

    Mas se a evolução ocorria, qual seria a sua causa subjacente? A inspiração chegar-lhe-ia através da leitura de Essay on the Principle of Population, do economista Thomas Malthus. A observação efectuada por Malthus, que na natureza, os animais e as plantas produzem muito mais descendência que aquela que os recursos naturais podem sustentar, e que o homem, da mesma forma, adopta um comportamento semelhante, se deixado ao seu fado. A diferença entre os dois pensadores surge na causa última pela qual se opera a fome e a pobreza resultantes da existência limitada de recursos: Malthus radica essa causa última na vontade divina, ao passo que Darwin concebia como causa última processos puramente naturais.

    Darwin determinou que produzindo mais descendência que aquela que poderia sobreviver impõe uma competição entre irmãos, e que as variações naturais entre irmãos produziriam indivíduos com uma possibilidade ligeiramente maior de sobrevivência. Esta consideração encontra-se no núcleo de todo o pensamento evolutivo de Darwin.

    Charles Darwin: 200 anos após o seu nascimento

    “Nada em Biologia faz sentido excepto à luz da evolução”
    (T. Dobzhansky, 1973)


    Cumpriram-se no dia 12 de Fevereiro 200 anos sobre o nascimento de Charles Darwin. O Contraforte propõe-se explorar, através de uma pequena série de ensaios, a vida e obra do naturalista que se constituiu como um dos contrafortes das Ciências Naturais, e cuja Teoria Evolucionária serve como elemento unificador da Ciência Biológica.

    • Charles Darwin: Vida e Obra (Parte I | Parte II)
    • Darwin e a Teoria da Evolução
    • História do Pensamento Evolucionário
    • Desafios à Evolução: Passado e Presente
    • 200 Anos Depois: Iniciativas e Comemorações